DiferenConto.
Olá caros bloguespectadores!
Estou lançando hoje uma nova linha de posts no DiferenTosco, o DiferenConto, onde serão postadas algumas pequenas histórias, para deleite dos leitores. Ou não.
A história de hoje:
O suicídio de Albert Naulfal.
Havia um corpo pendurado na sala de estar. Girava lentamente, a uma velocidade ilusória de 0,5 km/h em torno de seu próprio eixo, definido pela corda que ligava o teto ao pescoço do corpo.
Língua de fora, pele roxa, olhos projetando-se para fora do rosto, como que querendo sair quicando sala afora. Seu pescoço formava um ângulo quase que impossível anatomicamente, tanto que um matemático precisaria de talento para calcular em graus aquela imagem medonha.
Um arrepio gelado percorreu o corpo de John ao pensar em tudo isso enquanto seu semblante calculosamente montado para demonstrar espanto admirava nosso falecido protagonista. É, a vida é dura – pensou ele.
O próximo passo é encontrar um bilhete, uma carta, um escrito qualquer tão comum em suicídios como esse. Todo e qualquer suicida quer atenção, mesmo que seja pós-morte. John achava patética tal prática, pois se ninguém quis importar-se com o pobre diabo em vida, quem agora gostaria de aceitar de braços abertos esse homem roxo girando no meio da sala?
Uma olhada sobre o espaço entre o chão e os pés do cadáver… Nada. Passos em volta do pequeno altar da morte, também sem sucesso. Seria esse um suicida tímido? John não acreditava nisso; deveria haver uma carta de despedida. Ou aquele lustre humano póstumo seria analfabeto? Não; haviam recados na geladeira, tão importantes quanto não esquecer da roupa de banho para uma temporada em Bangu II.
_ Sexta: comprar a corda.
A casa encontrava-se ainda toda fechada, apenas John entrou depois do mais fresco ex-proprietário do local. Tudo estava cheirando a uma limpeza incomum para o aspecto daquele homem roxo, tornando a cena ainda mais desagradável aos olhos humanos. Misericórdia, como era feio aquele homem! Esse poderia ser muito bem o motivo do suicídio.
_ Volta para sua obrigação John! Não estamos aqui para um concurso de beleza de enforcados. Mesmo porque esse não teria chance alguma nem contra o Corcunda de Notre Dame pendurado pelo pescoço em seu sino.
Realmente, havia muito trabalho pela frente. Espero que não se sinta muito solitário em minha ausência neste encantador cômodo de sua casa! – disse John olhando fixamente para o morto, junto com algumas risadas sarcásticas que nem ele sabe direito donde vieram, porém foram de uma sinceridade emocionante para qualquer apreciador do bom humor negro.
O quarto ficava no segundo andar da casa. As escadas de madeira rangiam a cada novo passo, parecendo estarem afinadas na mesma nota, independentemente do local onde pisava. Porém esse pensamento não passou na cabeça de John, que estava preocupado com outras coisas além disso.
Tudo era religiosamente organizado para passar a sensação de uma casa de bons costumes. Um exemplo disso era o belo conjunto de cama que ocupava o quarto do pobre homem: tudo meticulosamente branco, tão branco que causava ânsia. Tudo remetia a um quarto tirado de uma série americana dos anos 90, porém não com um quarto de um homem solteiro. Resumindo: tudo era de um bom gosto um tanto incomum para o conceito ultrapassado de heterossexualidade masculina.
_ Suas luvas John, você entrou sem suas luvas!
Tiradas do bolso de seu casaco, as luvas descartáveis fizeram ecoar um barulho de látex em meio ao limbo criado pelo cadáver na sala, no andar inferior da casa. Colocadas cuidadosamente nas mãos, agora qualquer fator externo não poderia comprometer a integridade de suas mãos. Ao menos a sensação de segurança que esse pensamento lhe causava já valia o esforço para colocá-las.
Sobre o criado mudo, um exemplar da bíblia reinava sozinho como material editorial. O livro tinha um separador de páginas em seu interior, detalhe que mesmo que John tivesse percebido, não chamaria sua atenção devido à opinião pessoal de que mentiras serão sempre mentiras, não importa por quantos anos a mesma seja contada.
O aparelho de telefone emitia uma luz persistente, piscando de dois em dois segundos como se quisesse dizer algo. E realmente queria: era um recado gravado na secretária eletrônica. Durante um milésimo de segundo John considerou imoral ouvir uma mensagem que não era destinada a ele, porém isso mudou no exato momento em que ele apertou o botão e aproximou seu ouvido ao aparelho.
(Continua…)
Publicado em 11 11America/Sao_Paulo janeiro 11America/Sao_Paulo 2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.


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